quinta-feira, julho 12, 2012

ALAGOAS X IBAMA


Deputado Givaldo Carimbão (foto) e Senador Renan Calheiros declararam guerra ao Ibama por não dar licenciamento prévio a Estaleiro. Foto: Valter Campanato/ABr

A negativa do Ibama de dar a licença prévia para a construção do Estaleiro Eisa Alagoas no município de Coruripe, em Alagoas, abriu a porta para discussão sobre a forma de fazer política no Brasil. Explica-se, ao não dar a licença, por considerar que o local escolhido para a instalação do estaleiro não atende aos requisitos legais e ambientais, o IBAMA comprou briga com parlamentares de Alagoas, que disseram que pretendem prejudicar os projetos do Ibama que passarem pelas comissões no Congresso.

O deputado federal Givaldo Carimbão, líder do PSB na Câmara, foi o primeiro a repudiar a decisão do Ibama e a ameaçar: “Não está descartado ve­tar os projetos enviados pelo Ibama por intermédio do Mi­nistério do Meio Ambiente. Todos eles vão ter de passar pelas comissões onde tem parlamentares do PSB. Va­mos segurar o quanto puder (sic) para que esses projetos che­guem ao plenário da Câmara Federal. Como líder do PSB, convocarei para a próxima semana uma reunião com os deputados federais e coloca­remos em pauta essa ques­tão do Estaleiro Eisa. Vamos utilizar as nossas prerroga­tivas em prol de Alagoas”, garante Carimbão, que também é líder da chamada bancada alagoana.

O estado nordestino de Alagoas tem 9 deputados federais. Carimbão quer seguir os passos do senador Renan Calheiros (PMDB/AL), que no dia 3 pediu vista, recurso usado para adiar a votação da matéria. Assim, saiu da pauta da Comissão de Constituição e Justiça o projeto nº 60/2011, que cria novos cargos para o Ibama. “Os deputados federais de Alagoas não digeriram essa informação. Por isso, vamos mostrar que a nossa bancada também tem poder de atuação. Muitos parla­mentares estão na Comissão de Meio Ambiente”, disse.

No Senado, o clima de toma lá, da cá também tomou conta dos parlamentares. De acordo com o senador Calheiros, que também tem opoio de Fernando Collor (PTB-AL) e Benedito de Lira (PP-AL), a decisão do Ibama é política e será respondida com atraso na tramitação de projetos que beneficiem servidores da área ambiental. “Nós sempre ajudamos, eu sempre tive boa vontade, mas, enquanto o Ibama não resolver esse problema de Alagoas, sinceramente eu não vou ter com o Ibama a mesma boa vontade que eu sempre tive”, disse Calheiros.

O Ibama negou a licença prévia para o Estaleiro Eisa Alagoas no final de junho. O local para escolha do empreendimento foi considerado inadequado, por estar em área de mangue. “A área eleita pelo empreendedor demandaria expressiva supressão de vegetação de mangue, que somente poderia ser autorizada no caso de inexistência de alternativa locacional, conforme o Código Florestal (Lei nº.12.651/2012). As deficiências no estudo de alternativas locacionais apresentado pelo empreendedor afrontam o disposto na Resolução Conama 01/1986”, afirma em ofício mandado à empresa responsável pela construção. A empresa anunciou que irá pedir a reconsideração do parecer pelo Ibama. 


*Com Informações da Agência Brasil



Daniele Bragança*((O)) Eco

FLORESTA - DESMATAMENTO




Débito de extinção devido ao desmatamento: pesquisadores traçaram 4 cenários para todos os estados da Amazônia Legal. Tocantins e Mato Grosso têm o maior débito de extinção. Foto: Oliver Wearn



Manaus, AM – Dezenas de espécies de animais vão continuar a ser extintas na Amazônia nos próximos anos, mesmo que o desmatamento seja totalmente interrompido.  Em um artigo publicado nesta quinta-feira (12 de julho), na edição on-line da revista Science, cientistas britânicos estimam que em áreas do leste e sul da Amazônia o desmatamento ocorrido nos últimos 30 anos já comprometeu localmente a sobrevivência de 38 espécies de animais: 10 mamíferos, 10 aves e 8 anfíbios. 



Este espaço de tempo entre a destruição do habitat e os efeitos que provoca no conjunto da fauna que ali vive é chamado pelos cientistas de “débito de extinção”. Os pesquisadores britânicos Oliver Wearn, Daniel Reuman e Robert Ewers traçaram cenários para saber o quanto este débito vai aumentar, ou diminuir, até 2050. Na perspectiva mais pessimista, há locais em que chega a 55 o número de espécies que pode desaparecer: 15 de mamíferos, 30 de pássaros e 10 de anfíbios.



Para o ecólogo brasileiro Thiago Fernando Rangel, da Universidade Federal de Goiás, é melhor saber tomar agora conhecimento deste débito. Isto oferece a chance de reverter a tendência de extinção localizada de espécies. “Podemos dar um calote neste débito”, afirma. “Quando sabemos quantas espécies vão desaparecer no futuro, podemos tomar medidas para evitar ou mitigar isso”.



Rangel foi convidado pela Science, que pertence à Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAS), para escrever um artigo complementar ao estudo dos britânicos. Os dois artigos foram publicados na mesma edição. 



"Se você considera que existem 22 hidrelétricas de larga escala planejadas para a região, sérias intenções de reduzir as APPs (áreas de proteção permanente) e um Congresso inclinado a mudar e reduzir unidades de conservação, fica difícil continuar a reduzir o desmatamento"


Boas políticas poderiam reverter previsão

Ele explica que esse primeiro trabalho não indica quais, nem quando, serão os animais serão afetados. Além disso, a pesquisa aponta o desaparecimento localizado de espécies, em uma área limitada, e não em toda a Amazônia. “A espécie que desaparece em um local, pode continuar a existir em outro”, diz Rangel.

Para realizar o estudo, os autores partiram do princípio de que quanto maior a área, maior a variedade de espécies encontradas. “O aumento do número de espécies em função do aumento da área é previsível. Os autores inverteram o raciocínio”, conta Rangel. Eles usaram um modelo que avalia a relação entre a redução da área de floresta e o declínio na variedade de espécies. Através de dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), calcularam qual seria o débito de extinção para polígonos 50 Km X 50 Km, em diferentes cenários de  desmatamento.

Em seu artigo, Rangel conclui que em um cenário otimista a tendência do débito de extinção na Amazônia é se estabilizar antes de 2050. Mas este é um cenário que considera obediência às leis ambientais, fiscalização e ações de educação ambiental. Ou seja, se todos os problemas forem resolvidos.

O ecólogo adverte: o momento político é complicado. “Se você considera que existem 22 hidrelétricas de larga escala planejadas para a região, sérias intenções de reduzir as APPs (áreas de proteção permanente) e um Congresso inclinado a mudar e reduzir unidades de conservação, fica difícil continuar a reduzir o desmatamento”. Nesse caso, nosso débito de extinção vai crescer.


Vandré Fonseca
((O)) Eco 

terça-feira, julho 10, 2012

CIDADES


A utilização de woonerfs no urbanismo


Mas o que são os woonerfs?
Os woonerfs são vias públicas onde os pedestres e ciclistas têm prioridade sobre os automóveis e motocicletas, ou seja, uma rua prioritariamente para pedestres, também chamado de “Zona prioritária para pedestres”.  O termo surgiu na Europa nas últimas décadas, mas ainda é pouco conhecido e explorado no Brasil, assim como as cidades ao redor do mundo as cidades brasileiras cresceram e se desenvolveram desde o século XX em função do automóvel, em muitas dessas cidades, casas, pequenas alamedas e até o estilo de vida de determinadas regiões da cidade foram alterados ou destruídos em função da abertura, prolongamento, construção ou alargamento de vias para dar lugar ao trânsito pesado das grandes cidades.









Quando uma via é transformada em um woonerf não significa que a passagem de carros fica proibida, na grande maioria das vezes o que acontece é que apenas a quantidade e a velocidade dos automóveis são reduzidas. Na Holanda onde em 1999 tinha aproximadamente 6.000 woonerfs o código de transito holandês diz: “Nos termos do artigo 44 do código de trânsito holandês, o tráfego motorizado em uma "área de lazer" ou em um woonerf se restringe a andar em ritmo lento”. Na Alemanha os woonerfs são chamados de “Verkehrsberuhigter Bereich” e de acordo com o código de trânsito alemão a velocidade máxima não pode exceder 7km/h, e os pedestres e ciclistas estão autorizados a usar a via inteira e onde inclusive as crianças são autorizadas a brincar.

No Brasil a criação de zonas prioritárias para pedestres como os woonerfs seriam uma alternativa para manter o patrimônio histórico, arquitetônico, artístico e cultural de determinadas regiões das já caóticas cidades brasileiras, ou então a criação de uma alternativa de convívio público saudável e harmônico em meio a regiões comerciais ou empresariais das grandes cidades brasileiras. A instalação destas zonas também seria uma alternativa até mesmo em regiões periféricas onde as populações no geral têm poucos espaços públicos para o lazer.

Macapá tem uma área que poderia vir a ser um woonerf, a Alameda Francisco Serrano, que fica bem no centro comercial e aparentemente não foi construída para ser uma via para carros, e onde passam diariamente milhares de pessoas que trabalham seja nas lojas, nos órgãos públicos ou escritórios na região. Se reformulada a Alameda Francisco Serrano seria uma ótima opção de almoço e descanso para as pessoas que trabalham naquela área, e seria importante também dar uma utilidade noturna para aquela alameda uma vez que á noite aquela é uma região relativamente insegura.
Localização da Alameda Francisco Serrano
Vias ou áreas que poderiam se transformadas em woonerfs não faltam em nenhuma das cidades brasileiras, além de trazerem mais segurança diminuindo em muito a possibilidade de graves acidentes de transito, ainda possibilitam a convivência e a revitalização de áreas degradas da cidade. No caso da Alameda Francisco Serrano seria uma ótima alternativa, uma vez que atualmente o que se vê durante o dia é que a alameda serve de um grande estacionamento e durante á noite uma área propensa para a violência.
Al. Francisco Serrano

Al. Francisco Serrano

Al. Francisco Serrano


Referências:

Fonte: Verdades Urbanas

segunda-feira, julho 09, 2012

Amazônia


 Jun-Ago 2012
Amazônia, as raízes do atraso
 
Cristóvão Lins
Engenheiro agrônomo, escritor, especialista em Amazônia

028-25
 
As florestas plantadas são modelos de sustentabilidade por suprir continuamente matéria-prima das fábricas de celulose e madeira para diversas finalidades industriais. Porém essa sustentabilidade poderá ser ainda maior se consorciada com outras atividades produtivas.

São vários os fatores a serem considerados para caracterizar, na prática, a sustentabilidade de um empreendimento de silvicultura, sendo a maneira mais didática a baseada em exemplos de manejos já ocorridos. Não é tarefa fácil conciliar o tripé que rege teoricamente a sustentabilidade, ou seja, os fatores  econômico,  social e  ambiental, sendo que acrescentaríamos um quarto componente, o “tecnológico”, pois, sem ele, não existirá sustentabilidade, principalmente na Amazônia brasileira.

Um exemplo negativo ocorrido na Amazônia foi o ciclo da borracha (1870-1910), totalmente baseado em práticas extrativistas. Não somos contra o extrativismo, porém é preciso que se tenha tecnologia, pois, com o aumento da expansão demográfica e não havendo plantios mais adensados das essências florestais e experimentos científicos das espécies manejadas, para melhor conhecer o comportamento delas, logo o processo terá problemas econômicos, sociais e ambientais.

O mercado da borracha amazônica, ainda hoje, é o exemplo mais evidente. Nós o perdemos para os ingleses, que haviam contrabandeado sementes da seringueira para suas possessões asiáticas, com resultados catastróficos para a economia da Amazônia. Como comparação, enquanto a incidência da seringueira nas florestas nativas de áreas de várzea da Amazônia era (e é hoje) de uma média de 10 árvores por hectare, os ingleses plantaram 900, demonstrando, portanto, a difícil condição de se ter um empreendimento economicamente sustentável em condições de competição.

A Amazônia era o berço da seringueira e poderia ter hoje grandes seringais com sustentabilidade econômica, depois de vencidas as doenças fúngicas pela experimentação continuada. Mas isso não aconteceu, pois lhe faltou o principal fator para consolidar a atividade, ou seja, a tecnologia, que, no mínimo, poderia ter sido no método de adensamento, como bem disse recentemente Ignacy Sachs: “É possível adensar a floresta com as espécies que me interessam”.

Recentemente, lançamos um livro sobre a Amazônia, intitulado “Amazônia, as raízes do atraso”, no qual procuramos abordar as oportunidades que a região apresenta, devido às suas características naturais, propícias para a silvicultura e, de um modo geral, para a produção de biomassa, considerando a sua abundância em água, incidência de luz, inexistência de chuvas de granizo e outras condições adversas para a produção.

Porém nos falta a condição tecnológica, com a qual, sem dúvida, a silvicultura, em plantios intensivos consorciados, terá mais sustentabilidade, o mesmo acontecendo com os manejos sustentáveis das florestas nativas.

Para se obter sustentabilidade em qualquer atividade, é necessário ter tecnologia. Os seringueiros poderiam ter sido capacitados a observarem as árvores que eram mais sadias e resistentes ao ataque dos fungos, para que, mais tarde, os técnicos pudessem aproveitar esse conhecimento prático e obter clones resistentes e produtivos.

Isso nunca aconteceu, e, até os dias atuais, a maior parte das regiões amazônicas continuam com o mesmo método extrativista, não só da seringueira como também dos castanhais e das sementes oleaginosas, como o cumaru, puxuri e outras espécies; a sustentabilidade da economia é insuficiente porque não tem volume dos produtos.

Certas regiões estão em constantes conflitos, porque as populações dos castanhais e seringais aumentaram, havendo competição pelos produtos. Como consequência, a questão ambiental corre sérios riscos, porque os produtos são todos colhidos, não se mantendo sementes suficientes na floresta que possam germinar e produzir, fazendo a reposição das espécies. A situação se agrava, pois o caboclo amazônida não tem a cultura de plantar, costume herdado do nosso colonizador ibérico.

As florestas nativas da Amazônia correm sérios riscos se não forem manejadas adequadamente, com manejos sustentáveis, acompanhados de certificação. Não há condições de ela suportar a demanda desordenada dos desmatamentos. O sonho de grandeza, vivido durante a corrida da borracha, só serviu para aumentar a dependência de toda a economia da região, em torno de um único produto extrativista, desarticulando outras atividades que poderiam proporcionar um desenvolvimento sustentável.

Durante aquele período, a borracha tinha sido tudo para a Amazônia, mas, nos primeiros anos do novo século, a concorrência dos seringais da Ásia já dava claros sinais do desastre iminente.

Naquela ocasião, o cientista Jacques Huber visitou as plantações de seringais na Ásia. Impressionado com o que viu, não usou meias palavras e anunciou que a hegemonia da borracha da Amazônia no mercado mundial estava com os dias contados.

Continuando ainda mais um pouco com o exemplo do extrativismo puro, ou mesmo com a intocabilidade da floresta como alguns ambientalistas apregoam como o modelo certo, além do risco que as essências estão correndo por não serem replantadas por adensamento (seringueiras e castanheiras), ou por falta de manejo e conhecimento de seus ciclos (espécies comerciais produtoras de madeira) e ainda devido ao aumento populacional das comunidades extrativistas, que não têm o hábito de plantar, e mesmo criar, e servem-se, apenas para a sua alimentação, dos recursos faunísticos (plantadores da floresta).

As florestas nativas precisam ser olhadas pelo governo brasileiro como um grande negócio para diminuir a pobreza da Amazônia, considerando que, para cada emprego direto proporcionado por uma área em regime de manejo sustentável, haverá seis indiretos.

A título de informação, segundo Antonio Carlos Hummel, 20 milhões dos 239 milhões de hectares de florestas públicas da Amazônia apresentam condições que justificariam adotar o modelo de exploração sustentável.

Vamos tratar, a seguir, de métodos mais consistentes sobre a sustentabilidade, baseado no exemplo que tivemos a oportunidade de conduzir, quando ainda éramos funcionários da Empresa Jari, na qual tivemos a oportunidade de trabalhar pelo período de trinta anos.

O exemplo prático foi executado com uma floresta plantada com o Pinus caibaea, Vr. Ondurenses, mas que poderá também ser com eucalipto, paricá (Shizolobium amazonicum) ou outra espécie, sendo a cultura florestal a principal, do ponto de vista econômico, que poderá ser ajudada, na sua sustentabilidade, por outras atividades consociadas.

O manejo consorciando silvicultura de pinus com pecuária na empresa Jari, quando ainda pertencia a Daniel Keith Ludwig, na época um dos homens mais ricos do planeta, o qual tinha interesse pessoal no programa, que era visitado por ele anualmente, desde o seu início, no ano de 1976, era assim: denominado silvopastoril, foi executado em uma área de 10 mil hectares, com 3 mil bovinos, abrangendo as fases de cria, recria e engorda, utilizando a tecnologia de inseminação artificial com sêmen de raças europeias para corte, em vacas nelore, com ótimos resultados zootécnicos, tendo sido inseminadas, em média, 1.200 matrizes por ano.

O plantio do pinus foi efetuado no espaçamento de 4 metros entre as linhas e 2,2 metros entre plantas, existindo também espaçamentos de 4x3 metros. O plantio das gramíneas foi feito após o plantio do pinus, com um espaço de tempo de trinta dias.

A densidade do plantio do capim, no caso o colonião, foi de duas linhas ao centro, em cova aberta e distante uma da outra um metro. Somente após um ano, os animais teriam acesso ao capim. Nos primeiros meses, o manejo dos animais requeria cuidados para que não houvesse pisoteamento do pinus.

A carga de animais por área dependia do tamanho do piquete. Era feito rodízio, avaliando a altura do capim pastado, embora o suporte fosse até o quarto ano de 1 U.A (400 kg bruto) por hectare. Após o quarto ano, começaram as dificuldades da pecuária na arregimentação dos animais, diminuição das pastagens devido ao sombreamento da floresta e queda de acículas do pinus.

O manejo florestal restringia-se ao combate à saúva e a roçagens periódicas, em número comprovadamente bastante inferior, comparadas com áreas onde não havia o plantio de gramíneas, demonstrando, dessa maneira, uma ajuda substancial na sustentabilidade econômica da floresta.

Para avaliar a metodologia de produção consorciada, comparamos duas áreas da mesma idade plantadas com a mesma espécie florestal, sendo uma com plantio somente de floresta e a outra consorciada com pecuária, cujos resultados após a colheita da madeira foram os seguintes: a área manejada com pecuária e floresta atingiu um volume de medida de 126 m³, sem casca, e a sobrevivência do plantio até o corte raso foi de 80% (920 árvores).

A área com apenas silvicultura, com as mesmas características, teve um volume de madeira de 118 m³, sem casca, e a sobrevivência foi 74% (846 árvores). Portanto, já há 36 anos, em plena Amazônia, foi realizado um programa consorciado entre silvicultura, como a principal atividade econômica, e a pecuária bovina, demonstrando que uma atividade secundária poderá ajudar a manter a sustentabilidade florestal no seu tripé econômico, social e ambiental, sendo utilizada tecnologia de ponta nas duas atividades.

Na pecuária, na qual éramos os coordenadores do programa, utilizávamos sêmen importado dos melhores touros provados do mundo das raças Charolês, Herefford, Quianina, Marcgiana, Santa Gertrudes, inseminando vacas da  raça Nelore, obtendo um produto na geração F1 de altíssima qualidade, sendo o cruzamento de melhor performance com Charolês: na desmama, machos e fêmeas, com idades entre 8 a 10 meses, pesavam 263 Kg e 245 Kg, respectivamente; no abate, na faixa de 24 a 36 meses, os machos pesavam em média 444 Kg brutos.

A conclusão a que se chegou na prática em consorciar pecuária com silvicultura na Jari foi positiva em certos aspectos, pois, além do comprovado aumento da matéria-prima da essência florestal, foi também observado menor número de limpezas anuais e combate a saúvas.

Do ponto de vista do manejo do rebanho, por ser a área de responsabilidade da gerência florestal, o planejamento era direcionado com prioridade à silvicultura, porém não existem dúvidas de que as duas atividades podem ser operacionalizadas em conjunto em prol da sustentabilidade econômica, social e ambiental, devendo ser estimulada a sua prática nos manejos das florestas amazônicas ou, por que não dizer, nas florestas brasileiras.

Cabe aqui também mencionar que a sustentabilidade obedece a limites, e um determinado empreendimento poderá ou não ainda ter o que avançar, ou já estar comprometido com a sua expansão, não tendo mais como evoluir com a mesma velocidade de quando ainda não havia atingido as suas condições máximas, mesmo já tendo utilizado tecnologia.

No nosso exemplo, uma experiência vivida pelo período de 10 anos, embora tenhamos utilizado a área para pecuária com alta tecnologia abrangendo as modalidades de cria, recria e engorda, sugerimos que a utilização mais adequada para o consórcio floresta/pecuária seja a de recria e engorda.

Fonte: Revista Opiniões

Sustentabilidade


 Jun-Ago 2012
Sustentabilidade real
 
Marina Silva
Presidente do Instituto Marina Silva

028-00
 
Uma das novidades mais visíveis atualmente é a revolução no comportamento e nas relações humanas que a tecnologia da informação tem provocado.  As plataformas que aproximam milhões de pessoas nas redes sociais criam inúmeras oportunidades para o avanço e o aperfeiçoamento da democracia, para o controle social e para os processos educativos.

Sinais promissores de tempos que a humanidade jamais viveu. Mas esses bons ventos colidem com densas nuvens que pairam sobre nosso horizonte comum, num contexto também inédito para a humanidade.

Assim como os rios menores de uma bacia hidrográfica convergem para formar o rio principal, experimentamos vários tipos de crises que convergem e conformam o que eu chamo de crise civilizatória.  A crise social é denunciada pelos mais de 2 bilhões de pessoas que agonizam com menos de 1 dólar por dia no mundo. Desses, 15 milhões no Brasil.

A crise econômica solapa empregos e recursos públicos, tornando ainda mais vulneráveis as economias nacionais. A crise ambiental tem sua maior expressão na perda de biodiversidade e no aquecimento global, que ameaçam produzir profundas alterações nas condições de vida na Terra. Vivemos também uma crise sinalizada por movimentos espontâneos em todo o mundo como uma reação à estagnação da política, que exilou os sonhos dos jovens e se transformou em mero projeto de poder pelo poder.

Mas a melhor explicação para todas essas crises está numa outra crise mais profunda e potente, a crise dos valores.  É ela que nos faz desconsiderar o impacto de nossas ações sobre o próximo e sobre as condições que sustentam e promovem a vida no planeta. É, aparentemente, mais fácil falar de sustentabilidade em termos pragmáticos. Mas acho que precisamos pensar nesse conceito sob a perspectiva correta, a dos valores.

O que esse termo representa para cada um de nós? Oportunidade de negócios? Uma bandeira de contestação? Será que temos consciência crítica do impacto de nossas ações sobre o planeta? Estamos dispostos a mudar? Entendo sustentabilidade como um ideal humano a nos orientar agora e no futuro.

O ser sustentável do século XXI precisará fazer as melhores escolhas pensando no coletivo e não apenas na maximização de seus benefícios. A empresa sustentável persegue o lucro admirável e não o que impõe danos à natureza e à sociedade.

Como podemos traduzir tudo isso? A discussão sobre o futuro das florestas no Brasil é uma ótima ilustração do conceito de sustentabilidade na prática, ou da falta dele. A conservação e o uso sustentável das florestas é condição fundamental para que nosso país se desenvolva com sustentabilidade social, ambiental, econômica e cultural.

Desde que os levantamentos da FAO começaram a ser feitos na década de 60, conseguimos resultados expressivos na luta contra a destruição das florestas no mundo, e foi o Brasil o país que mais contribuiu para esse resultado.

A redução de quase 80% nas taxas de desmatamento da Amazônia desde 2004 é o resultado de uma política pública erigida sobre os fundamentos da sustentabilidade, que resultou no Plano de Combate ao Desmatamento da Amazônia. Nunca antes dominamos tão bem as técnicas de silvicultura para produzir de forma sustentável tantos bens e serviços das florestas como atualmente.

No entanto nunca antes se presenciou tão forte mobilização econômica e política para reverter a tendência de fortalecimento da governança socioambiental.O processo de mudança do Código Florestal foi uma claríssima demonstração desse conflito.

No momento em que escrevo este artigo, não sei qual será a decisão da presidente Dilma quanto ao projeto de lei que altera o Código Florestal. Centenas de jovens de todas as idades estão em frente ao Palácio do Planalto, fazendo uma simpática e cívica serenata para embalar a mente e o coração de nossa presidente para ajudá-la a contribuir para que a sustentabilidade seja um valor a orientar nossa caminhada rumo a uma sociedade desenvolvida, justa e fraterna.

Curiosamente, o setor florestal, que deveria exercer uma ação proativa na defesa da sustentabilidade, não se posicionou claramente em favor das florestas e sua conservação. A sustentabilidade é um conceito prático, tangível e auditável. Portanto é muito simples verificar sua observância nas condutas individuais, coletivas, empresariais e institucionais.

Como é que o setor de florestas plantadas pautará sua expansão para o nordeste brasileiro e como lidará com os remanescentes do bioma cerrado em estados como Piauí e Maranhão? O que a experiência de expansão da cultura de eucalipto em outras partes do Brasil nos ensina em termos de sustentabilidade? Será que não deveria ser o próprio setor a estar defendendo a realização do zoneamento do eucalipto, para que, num processo democrático e transparente, se estabeleça a zona de expansão dessas culturas, observando a segurança alimentar e a biodiversidade? Não seria coerente se o próprio setor de florestas plantadas assumisse o compromisso voluntário de desmatamento zero?

Não seria uma postura sustentavelmente coerente se o governo obrigasse os bancos oficiais a regulamentar a cobrança da taxa de juros de 4,5% prevista em lei para o exercício da atividade florestal? Não seria bom se houvesse um investimento público expressivo no desenvolvimento de silvicultura de espécies nativas, na qual se pudesse gerar atividades econômicas, emprego, renda e divisas, de forma sustentável? E que tal investir para que o Serviço Florestal Brasileiro seja uma instituição robusta, com grande poder de fomentar o crescimento do setor florestal sustentável no País? Afinal, temos ministérios e secretarias de peso voltadas para a pesca, a agricultura, a indústria, mas e para as florestas, que representam 65% do território nacional?

Costumo repetir quase como um mantra as instigantes palavras da psicopedagoga gaúcha Nádia Bossa, “a realidade responde na língua em que é perguntada”. Acho que essas são algumas perguntas que não podem deixar de ser feitas à realidade de nosso tempo. A história do setor de florestas plantadas do Brasil é uma das boas provas de que, quando as perguntas são feitas na linguagem certa e comprometida, a realidade sempre está apta a nos dar a resposta.

A sustentabilidade não é apenas um conceito prático. Ela nos induz a fazer novas perguntas e a buscar novas respostas. A sustentabilidade é também um estilo, um ideal de vida, é mais que um simples modo de fazer, é uma maneira de ser, que se realiza quando se torna exemplo de vida prático, dos negócios à política. 

Fonte: Revista Opiniões

sexta-feira, julho 06, 2012

Nigéria x Argentina



"Eu acho que você é meu companheiro de quarto", disse Lucas Viano.

Sua voz era amigável e confiante. Mas assim que ele me disse que era da Argentina, lembranças desagradáveis ​​inundaram minha mente. Eram lembranças de partidas de futebol perdidas, todas religiosamente assistidas na Nigéria, de onde eu venho.

Em Lucas, vi os rostos de grandes jogadores argentinos, incluindo o lendário Diego Armando Maradona e o inimitável Lionel Messi. Estes nomes fizeram os nigerianos perderem noites de sono, e chorarem sempre que a equipe nigeriana, conhecida como as Super Águias, enfrentou os argentinos na Copa do Mundo. A rivalidade de futebol entre a Nigéria e Argentina é tão feroz que às vezes beira a inimizade.

Entretanto,  no Rio de Janeiro, onde a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável ocorreu, , Lucas e eu colocamos a rivalidade de lado para nos concentrarmos nas questões do desenvolvimento sustentável. Cobrindo a conferência como jornalistas da bolsa Internews/O Eco, nós dividimos um quarto em um hotel no Centro do Rio. Isso implicou que tínhamos de nos entender para tornar a estadia agradável.

Nossa relação correu bem e acompanhamos e escrevemos sobre a Rio+20 no contexto de nossas próprias angústias. Embora, como jornalistas, devêssemos ser neutros e objetivos nas nossas matérias, éramos sobrepujados pelo sentimento de que a cúpula era sobre nós e nosso planeta. Como tal, seguimos as negociações com ceticismo e com a percepção de que os políticos não seriam capazes de acordar sobre "o futuro que precisamos”.

Nossos temores se confirmaram quando surgiu o documento final  fraco e aguado. Era, porém, aquele que permitu os negociadores baterem o martelo. Vimos como os representantes das mulheres, crianças e jovens, bem como os grupos da sociedade civil se opuseram ao documento. Estava ali o sentimento de que a diplomacia multilateral tornou-se o cemitério das grandes esperanças. Aceitando-se a argumentação que a delegação brasileira usou para angariar apoio ao texto, a conclusão é de que os políticos sentados na sala de negociação foram vítimas das expectativas do resto do mundo.

Lucas me contou, com medo nos olhos, sobre o problema duplo da poluição e do desmatamento urbano que a Argentina enfrenta. Através dele aprendi que, na Argentina, a última rodada de expansão da soja avançou sobre mais terras agricultáveis, e que há metas agressivas para continuar a expandir a área de cultivo em função da demanda de exportações para a China. Fui informado que esse movimento tem impactos extensos sobre o meio ambiente.

"O desmatamento no meu país é pior do que o desmatamento na Amazônia porque a Argentina é um país agrícola e, por isso, o desmatamento causa mais dano. Não vi nada sobre o assunto no texto da Rio +20", disse ele.
Seus lamentos sobre o desmatamento ressaltam as semelhanças entre Argentina e Nigéria neste problema específico. Na Nigéria, mais de 70% da cobertura florestal desapareceu. Vazamentos de petróleo devastadores combinados a horrendos incêndios em poços de gás deixaram, especialmente no Delta do Níger, o meio ambiente em um estado lastimável. De novo, errei ao pensar que era só na Nigéria que maus políticos conspiraram para destruir o "futuro que queremos”.

"Os políticos do meu país,  acredito, quase todos, não se preocupam com questões ambientais", angustiou-se meu colega argentino. "Mas acredito que as pessoas na Argentina se importam com o meio ambiente. Ano após ano, a pressão dos argentinos está obrigando os políticos a tomarem decisões para proteger a natureza", continuou.

Por outro lado, houve uma percepção de que um progresso fenomenal aconteceu fora das salas da travada negociação oficial. Mesmo os críticos mais ferozes das ONGs e de movimentos da sociedade civil conseguiram respirar um ar fresco e otimista. Eles lembraram que havia um consolo, a Rio +20 deveria ser vista como uma reunião de pessoas, onde, através de comunidades e empresas, um grande número de compromissos voluntários foi gerado. Eles serão monitorados para garantir que se realizem.

Também aos olhos de Lucas, a maior parte do que foi triunfo não teve nada a ver com as 49 páginas de intenções opacas do texto oficial.

"Nas reuniões paralelas, prefeitos das cidades [da Argentina] estão prometendo melhorar os sistemas de transporte para aumentar a eficiencia no uso de energia, e também no tratamento de lixo... Tudo isso está acontecendo fora do conferência principal”.  Ele disse que o setor privado e os governos de cidades e províncias estão mais interessados, estão mostrando mais vontade e coragem para lidar com os problemas que o planeta enfrenta.

Enquanto nos preparávamos para deixar a Rio+20, desejei o melhor ao Lucas e à Argentina na exploração dos caminhos para inventar o futuro que seu país precisa. Cheguei a esquecer de falar da vitória da Nigéria sobre a Argentina, em 1996, nas Olimpíadas de Atlanta. Rezei fervorosamente para que a humanidade reúna a coragem para superar os perigos enfrentados pelo planeta Terra.


*Armsfree Ajanaku Escreve para o jornal The Guardian na Nigéria.  É jornalista da Panos London e participou do Linking Southern Journalists do European Media Project. Ele cobriu a Rio+20 pelo programa de bolsas de (o)eco / Internews. A versão original desse artigo, em inglês, pode ser lida no site da Earth Journalism Network


Armsfree Ajanaku*
Fonte: ((O)) Eco

 

INTERNACIONAL - PERU


Habitantes de Lima fazem ato em solidariedade aos protestos contra projeto de mineração de ouro em Cajamarca. Foto:Reuters

Um civil foi morto e um proeminente ativista contra a mineração preso em protestos, na quarta-feira, contra o maior projeto de mineração de ouro do Peru, levando a inflamar ainda mais as tensões depois que o governo declarou estado de emergência. Oscar Valdés, primeiro-ministro do Peru, anunciou a morte do civil em uma coletiva de imprensa em Lima, mas não forneceu mais detalhes. Foi a quarta morte relacionada aos protestos em dois dias.

Marco Arana, um ex-padre católico, foi preso horas antes em Cajamarca, uma das três províncias onde o estado de emergência foi declarado. A transmissão de vídeo por um canal de TV local mostrou policiais do batalhão de choque o agarrando em um banco na praça central da cidade e o arrastando embora com uma chave de pescoço. Aos 49 anos de idade, o veterano de protestos anti-mineração escreveu no Twitter que "na delegacia, a polícia me bateu novamente, com socos no rosto, nos rins, com insultos".

Johnny Diaz, promotor-chefe local, disse à AP que ele designou um promotor para investigar a alegação de Arana. Diaz disse Arana foi preso por organizar reuniões, uma atividade proibida durante o estado de emergência. Ele disse que as autoridades não tinham emitido mandados de prisão ou feito prisões em massa na quarta-feira.

Além de Cajamarca, o estado de emergência foi declarado em duas províncias vizinhas, na noite de terça-feira, após três pessoas terem sido mortas durante um violento protesto na região.

Foi a segunda emergência declarada em cinco semanas com  intenção de controlar os protestos. Um período de emergência de 30 dias havia acabado de terminar em Espinar, uma província nas montanhas perto de Cuzco, a antiga capital inca. Em 29 de maio, duas pessoas foram mortas na região enquanto protestavam contra uma mina de cobre.

O foco do protesto de terça-feira é o projeto Conga de mineração de ouro, orçado em 4,8 bilhões de dólares (cerca de R$9,6 milhões), e paralisado no ano passado pela Newmont Mining Co, uma empresa baseada nos EUA. Os protestos foram iniciados por moradores locais sob o argumento de que a mina vai prejudicar suas fontes de água. O projeto de mineração, em que a Newmont é dona de uma participação majoritária, substituiria a mina de ouro Yanacocha, a maior da América Latina, mas que está próxima do seu esgotamento.

O governo do presidente Ollanta Humala anunciou no mês passado as condições para permitir a continuação do projeto, mas os adversários, apoiados por Gregorio Santos, presidente da província de Cajamarca, prometeram impedir que isso aconteça. Os manifestantes acusam Humala, que está no cargo há um ano, de renegar a promessa de campanha de colocar o acesso à água potável à frente de projetos de mineração.

Na terça-feira, milhares de manifestantes tentaram invadir a prefeitura de Celendín, uma cidade que é reduto de resistência à Conga, embora seu prefeito apoie o projeto. Três civis foram mortos, incluindo um adolescente de 17 anos, e pelo menos 21 pessoas ficaram feridas. O secretário regional de saúde disse que dois dos mortos morreram por ferimentos de bala na cabeça. As autoridades disseram que manifestantes abriram fogo contra as forças de segurança, ferindo dois policiais e um soldado.


*Publicado através da parceria de ((o))eco com a Guardian Environment Network (veja a versão original). Tradução de Eduardo Pegurier


Fonte: (()) Eco